UOL K



Meus Poetas...Meus Poemas...

Tópico: Abade de Jazente

Mendigo.
avatar
Paulino António Cabral (1719-1789), Abade de Jazente, nasceu e faleceu em Amarante. Foi abade da freguesia de Jazente, advindo-lhe daí o nome por que é mais conhecido. Pertenceu à Arcádia Portuense, juntamente com Xavier de Matos, seu colega de Coimbra, cidade onde ambos estudaram. Embora clérigo, escreveu poesias onde se canta o amor epicurista e horaciano. As suas obras foram publicadas em dois volumes: Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos, Abade de Jazente, vol. I (Porto, 1786) e Poesias de Paulino António Cabral, vol. II (Porto, 1787).
12:08 - 20/08/2006

« anterior | próxima » Paginas: 1 2

Respostas ao tópico: Abade de Jazente

Mendigo.
avatar
Amor é um arder, que se não sente;
É ferida, que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia a mais cruel, e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos,
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando, em quando;
É quem me causa eternos sentimentos:
É quem me mata, e vida me está dando.
12:09 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
Brutos penhascos, rústicas montanhas,
Medonhos bosques, hórrida maleza,
Que me vedes, coberto de tristeza,
Saudoso habitador destas campanhas.

Para me suavizar mágoas tamanhas,
Alteremos um pouco a Natureza;
Civilize meu mal vossa dureza,
Barbarizai-me vós estas entranhas.

Meu pranto vos comova algum afecto
De branda compaixão; pois da impiedade
Encontra sempre em vós um duro objecto.

Pode ser, que com esta variedade,
Seja mais agradável vosso aspecto,
Sinta eu menos cruel minha saudade.
12:09 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
A Manhã fresca está, sereno o vento,
O monte verde, o rio transparente,
O bosque ameno; e o prado florescente
Fragâncias exalando cento a cento.

O Peixe, a Ave, o Bruto, o branco Armento,
Tudo se alegra; e até sair a gente
Dos rústicos casais se vê contente,
E discorrer com vário movimento.

Este cava, outro ceifa e aquele o gado
Traz no campo a pastar de posto em posto;
Outro pega na fouce, outro no arado.

Tudo alegre se mostra: e só disposto
Tem contra mim o indispensável fado,
Que em nada encontre alívio, em nada gosto.
12:10 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
Tudo se muda: o génio unicamente
Em ser constante nos mortais porfia,
Connosco a vir ao mundo principia,
Connosco morre, e nunca se desmente.

Ele as paixões na idade mais florente,
Ele as acende na velhice fria:
É sempre o mesmo, e em nada se varia
Por mais que à vida a duração se aumente.

Dissimula-se sim, mas qualquer hora,
Apesar da mais rígida cautela,
Nos entrega cruel, e as faces cora.

Assim o antigo ardor, que me atropela,
Assim me incita, ó Nize, a que inda agora
Te adore amante, e te celebre bela.
12:10 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
VERDADES SINGELAS


Estas verdades singelas,
Sem artifício e conceito,
Pode-as ler qualquer sujeito;
E, se vir que alguma delas
Lá pela roupa lhe toca,
Tape a boca.

Dizer um senhor fidalgo
Que tem três contos de renda;
E que gasta uma fazenda
Só em sustentar um galgo,
Que todas as lebres mata,
Patarata.

Querer outro senhoria
Quando tinham seus avós.
Um tu, um você, um vós,
Somente por cortesia
Do cura, ou do senhorio,
Desvario.
12:11 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua...
Trazer de luto os criados
Um senhor mui reverente,
E dizer a toda a gente
Que gastou três mil cruzados
De seu pai no mortuário,
Gabatório.

Andar outro embonecado,
Ter amores, ter afectos,
E depois de ter já netos,
Andar inda namorado
Sem se lembrar da velhice,
É tontice.

Dizer um por vários modos
Que nos seus antepassados
Tem trinta réis coroados
Do claro sangue dos Godos
Que pelas veias lhe gira,
É mentira.
12:12 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua...
Andar outro como brasa
Vendendo soberba a molhos,
E metendo pelos olhos
Os brasões de sua casa,
E de seus avós o foro,
Desaforo.

Andar um para casar,
Buscando uma entre mil
Senhora rica, e gentil;
E entender que há-de achar
Por cima disto donzela,
Bagatela.

Insultar sem causa a gente,
Dar empuxões em quem passa;
Querer que lhe façam praça,
Ser por ofício valente,
Ser carrancudo e severo,
Destempero.
12:12 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua.
O que consente à mulher
Andar na dança aos boléus,
Escrever a chichisbéus,
E que lhe deixa fazer
Em tudo a sua vontade,
Vá ser frade.

Na de amor louca contenda
Andar sempre em viva roda;
Gastar nisto a vida toda,
O tempo, a vida a fazenda,
Depois ficar pelitrate,
Disparate.

O ter sempre a mesa posta,
Jogar, andar em caçadas,
Ter dama, fazer jornadas,
E nunca tomar resposta
A quem lhe pede dinheiro,
Cavalheiro.
12:13 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua...
O que tendo filha ou filho,
Os vê fazer a miúdo,
Este calção de veludo,
Aquela rico espartilho,
E mostra que não entende.
Que pretende?

Sustentar doze cadelas,
Um sacador, um furão,
Só por numa ocasião
Sair ao monte com elas
E caçar coelhos poucos,
É de loucos.

Ficar um filho segundo
Sendo da casa embaraço;
E viver como madraço
Com um sossego profundo
Tocando frauta ou viola,
Mariola.

A viúva rica e nova,
Que na igreja muito atenta
Lança devota água benta
De seu marido na cova
Só com a ponta do dedo,
Casa cedo.
12:13 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua...
A que não conhece o mês
E que diz que tem catarro,
Ou é velha ou come barro;
Ou algum excesso fez,
Que a curar-lhe leva às vezes
Nove meses.

A que entende que nunca
Pode amor entrar com ela,
Seja ingrata, seja bela
Lá lhe há-de vir a maré
Em que caia a formosura
De madura.

A senhora a quem o criado
Descalça o sapato e meia,
Se ela não é muito feia
E o moço não for honrado,
Faz um bucho retorcido
A seu marido.

A que tem dores da madre,
Que remédio aos mestres pede,
Que vai ao padre da Rede,
Ou toma cedo compadre
E acrescenta a gente em casa,
Ou se casa.
12:14 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua....
Se não é rica uma dama
E estraga airosa veludos;
Se acaso os homens sisudos
Lhe lançam nódoas na fama
Pela ver com indecência,
Paciência.

A que dança de arremesso,
Que faz versos e é cortês,
Que joga e fala francês,
Enfim mulher, que eu conheço,
Seja clara, seja bela
Fugir dela.

A que lê livros de amores,
Que sabe deitar um mote,
Que estraga olandas a cote,
Que faz cortejo aos senhores,
Se por milagre é donzela,
Ter mão nela.

Sair sem causa da terra,
Ir vagar pelas estranhas,
Ir por vontade às campanhas
E trazer sempre na guerra
Pendente a vida de um fio,
Desvario.
12:14 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
avatar
continua......
Ser de damas confessor
E ser cónego em sé vaga,
E ter quem lhe cure a chaga
Do tirano e cego amor
Lá muito pela escondida,
Boa vida.

Servir a el-rei toda a vida,
E depois em recompensa
Ter trinta mil réis de tença
Que é somente recebida
Lá no cabo da velhice,
Parvoíce.

Trazer títulos de Roma
Sem primeiro ter que gaste,
E ter bispo de Tagaste
Sem ter já rendas que coma,
Pagar a bula e gabela,
Bagatela.

Uma fidalga noviça,
Que quer, com grande insolência,
Ser tratada de excelência,
Com chinelas de cortiça
E manto de tafetá,
Arre lá.
12:31 - 20/08/2006 Apagar

« anterior | próxima » Paginas: 1 2



 
Atenção! Sua senha é secreta. Nenhum funcionário do UOL está autorizado a solicitá-la. Regras de uso. | Crimes virtuais: denuncie