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Tópico: Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo

Mendigo.
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Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877) nasceu em Lisboa. Devido ao seu envolvimento na «Revolta do 4 de Infantaria», é obrigado a emigrar para Inglaterra. Lê Walter Scott. Inicia a sua colaboração no Repositório Literário. Integra-se no exército liberal de D. Pedro IV, desembarca no Mindelo e participa no cerco do Porto. Ajuda a organizar a Biblioteca Pública do Porto. Em 1839 é nomeado director das bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda. Entretanto vai publicando algumas obras: A Harpa do Crente (1837), Lendas e Narrativas (2 volumes, 1839-1844), Eurico, o Presbítero (1844), o primeiro volume da História de Portugal (1846), O Monge de Cister (1848), etc. As suas obras são de cunho romântico e vão desde a poesia ao drama e ao romance. Foi, além de um dos mais importantes escritores portugueses do século XIX, o renovador do estudo da história de Portugal.
Outras páginas sobre o autor:

# Obras integrais de Alexandre Herculano
# Cronologia de Alexandre Herculano
# Notas sobre Eurico, o Presbítero
# A Cruz Mutilada
# Vale de Lobos
# Os últimos dias de Alexandre Herculano
# Apontamentos biográficos
11:21 - 20/08/2006

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Respostas ao tópico: Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo

Mendigo.
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A HARPA DO CRENTE (extracto)

(um poema)


A ARRÁBIDA

I

Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
11:22 - 20/08/2006 Apagar
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II

Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
11:22 - 20/08/2006 Apagar
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III

Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.

Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
11:23 - 20/08/2006 Apagar
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IV

Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.

Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
11:24 - 20/08/2006 Apagar
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V

Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
11:24 - 20/08/2006 Apagar
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VI

Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
11:25 - 20/08/2006 Apagar
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VII

Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
11:25 - 20/08/2006 Apagar
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VIII

Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.

Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.

Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
11:26 - 20/08/2006 Apagar
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IX

Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: � ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
11:26 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
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X

É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.

Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.

Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.

Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
11:27 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
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continuação......

Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
11:29 - 20/08/2006 Apagar
Mendigo.
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XI

Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.

Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que
11:29 - 20/08/2006 Apagar

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