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Meus Poetas...Meus Poemas...

Tópico: Miguel Torga

LaLi
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1907-1995

Nasceu em São Martinho de Anta (Vila Real). Pseudónimo de Adolfo Correia
da Rocha. Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1937.
Poeta, romancista, novelista, dramaturgo, memorialista e ensaísta. Prémio
Camões. Ele é a «reencarnação de um poeta mítico por excelência - daqueles
que vive na intimidade das forças elementares (a terra, o sol, o vento, a
água) para celebrá-las com o seu canto» (David Mourão-Ferreira).
15:51 - 11/07/2006

Respostas ao tópico: Miguel Torga

LaLi
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Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, 1977
15:52 - 11/07/2006 Apagar
LaLi
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Mar

Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No búzio do areal...
Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado...
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.

Diário XI
15:52 - 11/07/2006 Apagar
LaLi
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Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou;
Canto como um possesso
que na casca do tempo, a canivete,
gravasse a fúria de cada momento
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento


Outros, felizes, sejam rouxinóis
Eu ergo a voz assim, num desafio,
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.


Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
15:53 - 11/07/2006 Apagar
LaLi
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Identidade


Matei a lua e o luar difuso
Quero os versos de ferro e de cimento
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.


15:54 - 11/07/2006 Apagar
*caipira®*
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Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

(Miguel Torga)
17:58 - 11/07/2006 Apagar
LaLi
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Apelo

Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o imite dos mortais.
11:38 - 12/07/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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***

*Livro de Horas*

Aqui diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,

E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
E o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
00:53 - 31/07/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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Índice das publicações do Poeta Miguel Torga, neste tópico:
• Apelo
• Identidade
• Livro de Horas
• Mar
• Orfeu Rebelde
• Recomeça...
• Súplica
00:55 - 31/07/2006 Apagar
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A largada

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiadas por sinais
Duma agulha inquieta como elas...

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe-Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviam no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

Miguel Torga
12:54 - 30/10/2006 Apagar



 
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