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Tópico: * Fernando Pessoa *

ÞerÞetµal night
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Fernando Pessoa e seus heterônimos
Fernando Pessoa
Alberto Caeiro
Ricardo Reis
Álvaro de Campos
O crítico George Steiner situa Fernando Pessoa entre os mestres da modernidade
em artigo que inicia o leitor de língua inglesa na obra do poeta e seus três heterônimos
É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um dia. Foi
precisamente o que ocorreu em Lisboa a 8 de março de 1914.
Alberto Caeiro escreveu 30 e tantos poemas a toque de caixa. A estes se seguiram,
"imediatamente e totalmente", seis poemas de Fernando Pessoa ele só. Mas Caeiro não saltara à existência sozinho. Viera acompanhado de dois discípulos principais. Um era Ricardo Reis; o outro: "De repente, em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma "coterie" inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa".
A língua de Campos é bastante parecida à de Pessoa; Caeiro escreve um português
descuidado, por vezes com lapsos; Reis é um purista cujo linguajar Pessoa considera
exagerado.
Mais sobre tão completo poeta no Jornal da Poesia em Fernando Pessoa e seus Heterônimos, Por George Steiner
No mais é o sentir na alma tanta poesia.
02:00 - 07/03/2006

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Respostas ao tópico: * Fernando Pessoa *

ÞerÞetµal night
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*Deixei de ser aquele que esperava*

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.
02:07 - 07/03/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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(Álvaro de Campos)

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
O que há -
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

17:47 - 09/03/2006 Apagar
Chuvinha
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Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?
10:42 - 14/03/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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<<Dói viver, nada sou que valha ser.>>

Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.

Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nado do que fui sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.

Assim, noturno, a árias indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,

E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.
10:03 - 22/03/2006 Apagar
*caipira®*
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Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


Fernando Pessoa, 2-8-1933.


*caipira®*
17:05 - 22/03/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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(...)A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.(...)
[Trecho de "Num meio-dia de fim de Primavera (VIII") - Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"]
12:48 - 27/03/2006 Apagar
*caipira®*
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Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar

Fernando Pessoa
17:12 - 27/03/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." [Fernando Pessoa]
12:09 - 28/03/2006 Apagar
ÞerÞetµal night
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" Dorme enquanto eu velo... Deixa-me sonhar... Nada em mim é risonho. Quero-te para sonho, Não para te amar. A tua carne calma É fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços. Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser. Dorme, dorme. dorme, Vaga em teu sorrir... Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir."
Fernando Pessoa

Um presente do amigo (?Enigm@tico?). Lindo! Obrigada por se fazer presente.
22:21 - 02/04/2006 Apagar
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Não: não digas nada!


Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa
11:47 - 03/04/2006 Apagar
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"As vezes digo
que as flores
sorriem,
e também digo
que os
rios cantam,
não é porque eu julgue
que há sorriso
nas flores e
cantos no
correr dos rios...
É porque assim faço
mais sentir aos homens falsos,
a existência verdadeiramente
real das flores e dos rios..."

Fernando Pessoa
13:49 - 07/04/2006 Apagar
Dom F
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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa
18:12 - 07/04/2006 Apagar

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